henrique,
eu não sei se era realmente para escrever, nessa coisa aqui, mas estou interessada em debater um assunto com você. eu tive dificuldade de pensar no que é que eu te escreveria, se eu teria que escrever que as suas mãos eram pequenas e as suas unhas eram limpas e coisas do tipo, e por causa do seu post, eu finalmente percebi. era preciso ter atrito, finalmente atrito, para que se escrevesse algo que fosse válido dirigir ao outro.
você também concorda que quando conversamos é só uma espera pela pausa para que possamos falar de nós mesmos? alguns anos antes, eu não concordava, eu li um pouco do livro do merleau ponty, ele dizia que quando um fala e o outro escuta, é porque a escuta já é uma fala, um indivíduo penetra no outro através da fala - da palavra falada. eu achava este um belo conceito de conversa, porque dizia algo sobre uma conexão profunda entre o emissor e o receptor, que eles estão juntos universo da linguagem, ao falarem e entenderem a mesma língua, e a fala era mais só que boca e ouvido. mas há quem diga (e eu não direi quem) que não estamos conversando, e sim elaborando nossas respostas, fechados num pequeno espaço que é a nossa própria mente, vida. nunca a do outro. dessa forma, seria a conversa mais sobre boca e ouvido mesmo? há algo também de sexy pensar que uma conversa não é linguagem - mas olho, boca e ouvido.
eu sinceramente não sei, e não era sobre isso que eu gostaria de falar. hoje belchior morreu. bem, que belo tema para um começo/ que triste tornar o homem em tema. sobretudo, porque a morte, em geral, é o mais desejado dos motes, serve-nos crua ou em metáfora, e é a única justificativa razoável para estarmos vivos. em segundo, belchior, porque considero que há um ponto de conexão ente nós (e bem, entre milhares de gente, mas que importa agora?) em gostar de belchior. porque eu ouvi uma centena de vezes em seu carro, em viagens, porque cantei umas duas ou três vezes em anos novo, com você (e com uma porção de gente da nossa geração, mas foda-se) ano passado eu morri, esse ano eu não morro.
todos os anos passados belchior tinha morrido e continuava vivo. então, ele morreu. é triste constatar esse fato inexorável da vida. ele morreu, e então, ano passado eu morri e esse também eu morri. acabou, é quase alívio, contra o espetáculo, você escreveu.
eu nunca escrevi nada a ninguém que morreu no dia da súbita morte - nem mesmo a minha irmã, imagino - e eu não iria escrever nada, mas meu facebook ia ser tomado pelos amantes do belchior, tudo que eu faria era reagir, eu esqueceria o dia de sua morte. eu não estava preparada para lhe dizer nada, então fui só honesta com o meu coração, escrevi o que teria escrito numa carta de fã, olá belchior, volte. estou aqui, te amo tanto, te recebo na minha casa, eu juro.
no entanto, eu não estou satisfeita com nenhuma das versões de amor declaradas, nem a minha, nem a sua. ora. havia um belchior vivo em algum lugar e me interessa pensá-lo neste lugar, sem querer ou conseguir voltar? desculpe-me o debate raso, mas entrarei nele através da astrologia. há três escorpianos que brilham violentamente na nossa terra (para mim e para milhares, não importa): torquato neto, belchior e milton nascimento. os três tem destinos diferentes. torquato, um escorpião quase ardido (por demais clássico), se suicidou muito jovem, deixando uma carta para sua esposa, fez uns filmecos, escreveu canções, um livro e deu adeus à essa tortura que é viver. belchior, nós sabemos, foge, some e agora morre. milton continua vivo, e a gente quase diz, bem baixo, infelizmente.
você concorda que todos os verdadeiros amantes de belchior preferem ele no escuro do que na luz que jorra sobre milton? e, finalmente, podemos nos perguntar porque é que belchior não faz como torquato, porque ele continuou a nos torturar com a sua vida que era meio morte?
é óbvio que ele é o meu favorito, primeiro por sua obra, segundo por essa trajetória onde é possível, tão fácil, se espelhar. eis o que eu acho:
o que belchior fazia não era apenas alimentar seu próprio mito, tornar-se, finalmente, a sombra, sem precisar morrer para tal? tornar-se uma memória em vida. mas como é que ele vivia sendo ele próprio esta memória? pensava ele, amargurado, tinha medo? eu consigo imaginar um belchior com medo, com tanto medo quanto eu tenho, medo de retornar, medo de por palavras onde ele já não sente que precisa delas. medo de não pertencer a este mundo - de nunca ter pertencido? pois será, ele se pergunta, este um ato de covardia ou de coragem? tendo desistido da fama e dos especiais de fim de ano e de discos de homenagem e regravações com a maria gadú, não fazia só por alimentar a fama do insaciável, a fama do que é perdido, por crescer tanto o mito no escuro que seria impossível voltar? como é que ele corresponderia às nossas expectativas, como é que ele poderia escrever de novo... se tudo passou... ou se tudo já fora escrito? por isso eu quis dizer que, se ele voltasse, haveria tanto gente para continuar a amá-lo. por que me é tão difícil imaginá-lo apenas vivendo, ás vezes feliz, fugindo da fama como uma figura absoluta consciente de si mesma? sabendo que esta não lhe seria confortável, só causaria problemas, que ele tinha uma mulher ou mais de uma mulher, ouvia uns discos, que estava tudo bem. mas não me é possível imaginar ele a não ser como alguém que viveu, por todos os dias, e todos os segundos do dia, a contradição de estar vivo.
melhor do que qualquer escorpiano.
talvez eu não tenha conseguido me expressar bem tudo que eu queria ter dito. mas fica para a próxima, se houver.
se nada te despertar desejo de responder, diga aí, qual teu cd favorito dele?
até.
ps: triste fato, tive que corrigir uns verbos de presente para passado, a morte ás vezes significa só uma correção verbal.