bem, eu não li minha primeira resposta, qualquer contradição será dialética à parte. falando em dialética, eis um dos muitos conceitos que compreendo muito pouco. a hegeliana, pela wikipedia, parece mais compreensível, mas a marxista, nunca cheguei nela. então não faço a mínima ideia do porquê que eu fico insistindo em usar nomes que eu não sei que de fato significa. foi exatamente o que a ciça me disse na banca do meu tcc, sabia? ela disse, os escritores geralmente se preocupam em achar a palavra exata para designar o sentido das coisas, mas você não, você flutua e é ambígua, essa é sua potência, mas pode ser sua maior fraqueza.
(eu nunca tinha escrito isso e tenho me esquecido demais, espero que isso sirva pra de fato penetrar em mim)
então, vou tentar conversar diretamente e sem florear tanto: seu texto e o trecho do vídeo me lembrou a brisa que eu tive numa matéria da fflch sobre poesia marginal. só por conta dessa aula é que eu consigo relacionar torquato e belchior. a matéria começava com torquato, que embora eu quisesse muito gostar, na verdade eu não conseguia lê-lo, ler, de fato. bem, isso foi em 2014. acho que eu ouvia muito belchior em 2014, e o que eu queria fazer de trabalho final era relacionar a poesia marginal com belchior. era um pouco ousado demais, eu acabei fazendo da ana cristina césar, que além de já ser parte do programa, era, veja bem, feminista.
(eu comprei a edição nova e póstuma dela da companhia das letras e nunca li inteiro. bem, o que eu verdadeiramente amei em ana c foram as suas fotos, o suicídio e a sua prosa. alguns poemas, mas não os mais complexos. foi com ela que eu aprendi o que é bliss - uma linda palavra exata. bem, o que eu amei em ana c foi o ídolo, o que eu amei em belchior foi o ídolo e eu fui até aonde os ídolos não me deixavam ver, ver, a obra).
para te explicar por quê é que eu queria relacionar poesia marginal com belchior, busquei no meu facebook um poema que eu publiquei, um poema que eu nunca esqueci, embora eu esqueça sempre o nome do seu autor. neste raro caso entre as minhas paixões, a obra ressoa mais que o nome.
apresentei-lhe o poema, agora falo um pouco da poesia marginal. foi só lendo os textos dessa matéria que eu pude compreender coisas que eu fingia entender: a tropicália e o cinema novo/ a pós-tropicália e o cinema marginal. o antes e o depois do ai-5.
tanto tropicália quanto cinema novo eu consumi por obrigação, eu gostei por conveniência. respira-se neles aquela explosão, o projeto de mundo, energia de juventude, o ato artístico e revolucionário. o ai-5 afunda todos os sonhos, engaveta os projetos, manda os caras pro exílio ou os incorpora ao discurso oficial, disso estamos cansados de saber.
o marginal é o depois e o fora de qualquer esquema econômico oficial; o marginal é o não-exílio, mas escrever sobre sair para comprar um pão, andar de avião, ir ao cinema, janelas e carros e de um desespero que não se sabe nem como falar sobre. é niilismo e nostalgia. é a helena ignez falando planetinha, é a ilha dos prazeres ser o guarujá. tudo está tão próximo e distante; quanto mais próximo, mais distante.
continuam a nos vender a tropicália como o supra-sumo e genialidade, a referência de qualquer arte produzida e a se produzir - mas a nossa existência foi atravessada por décadas de indivíduos sem qualquer projeto de mundo. por indivíduos que pareciam viver na eterna ressaca do tempo histórico, vendo filmes sobre aliens e fim de mundo. e que se produziam poética, era só o alcance da vista, das próprias mãos, do dentro, do corriqueiro. e que não podiam mais reivindicar, deste modo, o trono do mundo.
e é com eles, acho eu, que a nossa geração, realmente, se encontra. é por eles que explode a paixão da nossa geração, é à esse modo de fazer política que nos reportamos (ver: diretores chatíssimos que referenciam cinema marginal).
mas o que diabos, me diz, o que somos nós? em uma linha contínua de desesperança e pequenez, do que é feito o nosso bliss?
nestes últimos meses, tiraram da tumba da memória direto pro hall da fama, a ana c, o belchior, até o cacaso. eu não sei, realmente não sei mais, por quê é que estamos transformando em ídolos a quem justamente negou seus próprios ídolos? por quê é que não estamos amando nossos ídolos como se deve amá-los? por quê é que estamos subvertendo as suas escolhas políticas?
como é que se ama alguém sem transformá-lo em ídolo e mercadoria?
como é que se ama alguém corriqueira, pequena e desesperançada?
amar alguém em angústia, talvez.
mas é amargo. e também me dá ânsia de vômito.
espero que eu não tenha feito muito womansplainning,
um beijo.
e ah, sim, eu atrasei horrores, e agora atrasarei no mínimo 1 mês (a não ser que eu escreva dum celular em pela croácia), fica a seu critério as consequências legais deste contrato.
um blog pra chamar de nosso
o jogo começa: um de nós escreve, o outro deve responder em até uma semana. vamos ver onde isso vai dar? ;)
terça-feira, 23 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
carta 2: temos sangrado demais
mariana
primeiramente, peço desculpas por desobedecer a regra do intervalo semanal. se quiser, sinta-se livre para sugerir uma punição à altura.
acho que você tem razão quando diz da necessidade do atrito, como meio para iniciar um diálogo válido (ou vagamente necessário); é difícil avançar em um pingue-pongue de concordâncias e reconcordâncias, uma verdadeira ciranda em que cantamos todos juntos a mesma reza, uma mesma visão da vida que não é minha nem sua, mas algo entre ambas, um espaço em que concordamos todos com tudo e ignoramos as linhas que divergem disso. o mesmo blablabla de sempre, facebolha, convolução social, etc. etc. etc... também não é sobre nada disso que quero falar, mas talvez isso tenha sido um dos motivos que me levou a escrever aquele post.
a morte nos serve bem como tema, acho, porque é absoluta em sua essência, um evento único e comovente que reúne todas as possibilidades de reações, do choro comovido às revelações dos "presuntos do patriarcado", passando ainda pelas declarações de posse do luto ("pessoas de direita nunca entenderam Belchior!") assim como a simples indiferença. eu também relutei em escrever qualquer coisa a título de nota de falecimento, mas algo nessa coleção de manifestações me irritava, ao mesmo tempo em que não podia deixar de pensar o quanto Belchior tinha trespassado nossas vidas, muitas vezes através da minha obsessão musical por ele. um sentimento horrível de que eu deveria me pronunciar, depois de tantos anos "doutrinando" amigos e conhecidos, decorando cada canção de cada disco e cantando junto repetidas vezes. escrevi um texto duro, admito, um texto agressivo, uma provocação insensata. mas foi o que deu pra dizer na hora.
a verdade é que eu tenho uma dificuldade grande em me emocionar de verdade com o falecimento de famosos, especialmente quando eles já têm certa idade. mesmo que sejam famosos importantes pra mim. talvez nenhuma morte devesse me atingir tanto quanto a do Belchior, mas a distância entre o homem que morreu e a figura que celebrávamos me parece grande demais. talvez eu não seja capaz de compreender a paixão escorpiana que movimentou seus anos de vida, mas certamente eu não consigo compreender a paixão dos que lamentam sua morte como se ele fosse um membro da família, um amigo de longa data. isso não é motivo para diminuir essa dor. mas alguma coisa nesse lamento me parecia incongruente com o que eu tinha compreendido de todos aqueles anos ouvindo as músicas dele.
no dia em que bebemos o morto, assistimos a um especial da TV Cultura de 1974, parte da campanha de promoção do "Mote e Glosa". lá estava um belchior insuportavelmente jovem, com cara de hippie, de voz macia ao falar de seus muitos irmãos e do que ele entendia do cenário da MPB - se não me engano, ele chegava a citar Torquato. colo no final do texto o link, começando nos minutos finais em que ele discorre suas polêmicas sobre a música brasileira, sua agressividade contra o establishment pós-tropicalista, sua revolta com a cultura dos ídolos. são minutos em que se deflagra essa contradição que seriam seus anos de fama, um ídolo anti-ídolos, uma voz estranha falando de amenidades e de política com a mesma força, porque suponho que ele vivia a vida íntima e política da mesma maneira, sem distinção. abraçar e beijar é equivalente a explodir um tanque, ir ao cinema e falar de amor é tão transgressor quanto pichar um muro.
a juventude sempre foi um tema recorrente nas músicas do Belchior, não só nas letras como numa percepção de juventude que ele tentava transparecer em cada disco, uma busca incansável pelo novo, que acabou transformando ele numa caricatura estranha dos anos 80 em diante. acho que quando eu falo da sombra correndo da própria sombra, é nesse novelo oitentista que eu penso. foi ali que ele começou a abraçar demais tantas coisas tão diferentes e contraditórias, ultrapassando os limites da compreensão. é preciso uma certa generosidade ao ouvir os discos dessa época ("Cenas do Próximo Capítulo" em diante). mas ele sempre estava ali, sangrando loucamente em cima do palco, explodindo em suor e bigode.
talvez esse sentimento de perda me incomode por ir contra essa ousadia, essa "pulsão de vida" que projetou ele em tantos absurdos. e aí entendo a dor por ver essa energia ser cortada, mesmo depois dos anos de reclusão maníaca. acho impossível tentar entender o que aconteceu dentro da cabeça dele durante essa fuga, e sinceramente não me interesso muito. acho que ele viveu como quis, como um rockstar desequilibrado. talvez ele tenha sentido medo de voltar, talvez o medo das críticas e das paródias fosse maior do que o alento do amor dos fãs, sei lá.
concordo que as nossas declarações de amor sejam imperfeitas. mas pelo menos são mais honestas do que charges dele entrando no céu com um violão (que graças a deus não apareceram na minha frente). disseram que ele estava escrevendo, que compunha, que se "incomodava com o golpe". também disseram que ele morreu porque sangrou demais, ouvindo música clássica. o mito sempre vai estar montado nos ombros do homem. acho que o mínimo que podemos fazer é tentar sangrar de volta, mesmo que pareça impossível, mesmo que não acreditemos em mais nada.
(deixo aqui os minutos finais desse registro absurdo: https://youtu.be/94-rOEVnyDg?t=48m29s)
primeiramente, peço desculpas por desobedecer a regra do intervalo semanal. se quiser, sinta-se livre para sugerir uma punição à altura.
acho que você tem razão quando diz da necessidade do atrito, como meio para iniciar um diálogo válido (ou vagamente necessário); é difícil avançar em um pingue-pongue de concordâncias e reconcordâncias, uma verdadeira ciranda em que cantamos todos juntos a mesma reza, uma mesma visão da vida que não é minha nem sua, mas algo entre ambas, um espaço em que concordamos todos com tudo e ignoramos as linhas que divergem disso. o mesmo blablabla de sempre, facebolha, convolução social, etc. etc. etc... também não é sobre nada disso que quero falar, mas talvez isso tenha sido um dos motivos que me levou a escrever aquele post.
a morte nos serve bem como tema, acho, porque é absoluta em sua essência, um evento único e comovente que reúne todas as possibilidades de reações, do choro comovido às revelações dos "presuntos do patriarcado", passando ainda pelas declarações de posse do luto ("pessoas de direita nunca entenderam Belchior!") assim como a simples indiferença. eu também relutei em escrever qualquer coisa a título de nota de falecimento, mas algo nessa coleção de manifestações me irritava, ao mesmo tempo em que não podia deixar de pensar o quanto Belchior tinha trespassado nossas vidas, muitas vezes através da minha obsessão musical por ele. um sentimento horrível de que eu deveria me pronunciar, depois de tantos anos "doutrinando" amigos e conhecidos, decorando cada canção de cada disco e cantando junto repetidas vezes. escrevi um texto duro, admito, um texto agressivo, uma provocação insensata. mas foi o que deu pra dizer na hora.
a verdade é que eu tenho uma dificuldade grande em me emocionar de verdade com o falecimento de famosos, especialmente quando eles já têm certa idade. mesmo que sejam famosos importantes pra mim. talvez nenhuma morte devesse me atingir tanto quanto a do Belchior, mas a distância entre o homem que morreu e a figura que celebrávamos me parece grande demais. talvez eu não seja capaz de compreender a paixão escorpiana que movimentou seus anos de vida, mas certamente eu não consigo compreender a paixão dos que lamentam sua morte como se ele fosse um membro da família, um amigo de longa data. isso não é motivo para diminuir essa dor. mas alguma coisa nesse lamento me parecia incongruente com o que eu tinha compreendido de todos aqueles anos ouvindo as músicas dele.
no dia em que bebemos o morto, assistimos a um especial da TV Cultura de 1974, parte da campanha de promoção do "Mote e Glosa". lá estava um belchior insuportavelmente jovem, com cara de hippie, de voz macia ao falar de seus muitos irmãos e do que ele entendia do cenário da MPB - se não me engano, ele chegava a citar Torquato. colo no final do texto o link, começando nos minutos finais em que ele discorre suas polêmicas sobre a música brasileira, sua agressividade contra o establishment pós-tropicalista, sua revolta com a cultura dos ídolos. são minutos em que se deflagra essa contradição que seriam seus anos de fama, um ídolo anti-ídolos, uma voz estranha falando de amenidades e de política com a mesma força, porque suponho que ele vivia a vida íntima e política da mesma maneira, sem distinção. abraçar e beijar é equivalente a explodir um tanque, ir ao cinema e falar de amor é tão transgressor quanto pichar um muro.
a juventude sempre foi um tema recorrente nas músicas do Belchior, não só nas letras como numa percepção de juventude que ele tentava transparecer em cada disco, uma busca incansável pelo novo, que acabou transformando ele numa caricatura estranha dos anos 80 em diante. acho que quando eu falo da sombra correndo da própria sombra, é nesse novelo oitentista que eu penso. foi ali que ele começou a abraçar demais tantas coisas tão diferentes e contraditórias, ultrapassando os limites da compreensão. é preciso uma certa generosidade ao ouvir os discos dessa época ("Cenas do Próximo Capítulo" em diante). mas ele sempre estava ali, sangrando loucamente em cima do palco, explodindo em suor e bigode.
talvez esse sentimento de perda me incomode por ir contra essa ousadia, essa "pulsão de vida" que projetou ele em tantos absurdos. e aí entendo a dor por ver essa energia ser cortada, mesmo depois dos anos de reclusão maníaca. acho impossível tentar entender o que aconteceu dentro da cabeça dele durante essa fuga, e sinceramente não me interesso muito. acho que ele viveu como quis, como um rockstar desequilibrado. talvez ele tenha sentido medo de voltar, talvez o medo das críticas e das paródias fosse maior do que o alento do amor dos fãs, sei lá.
concordo que as nossas declarações de amor sejam imperfeitas. mas pelo menos são mais honestas do que charges dele entrando no céu com um violão (que graças a deus não apareceram na minha frente). disseram que ele estava escrevendo, que compunha, que se "incomodava com o golpe". também disseram que ele morreu porque sangrou demais, ouvindo música clássica. o mito sempre vai estar montado nos ombros do homem. acho que o mínimo que podemos fazer é tentar sangrar de volta, mesmo que pareça impossível, mesmo que não acreditemos em mais nada.
(deixo aqui os minutos finais desse registro absurdo: https://youtu.be/94-rOEVnyDg?t=48m29s)
domingo, 30 de abril de 2017
carta 1: esse ano eu morri
henrique,
eu não sei se era realmente para escrever, nessa coisa aqui, mas estou interessada em debater um assunto com você. eu tive dificuldade de pensar no que é que eu te escreveria, se eu teria que escrever que as suas mãos eram pequenas e as suas unhas eram limpas e coisas do tipo, e por causa do seu post, eu finalmente percebi. era preciso ter atrito, finalmente atrito, para que se escrevesse algo que fosse válido dirigir ao outro.
você também concorda que quando conversamos é só uma espera pela pausa para que possamos falar de nós mesmos? alguns anos antes, eu não concordava, eu li um pouco do livro do merleau ponty, ele dizia que quando um fala e o outro escuta, é porque a escuta já é uma fala, um indivíduo penetra no outro através da fala - da palavra falada. eu achava este um belo conceito de conversa, porque dizia algo sobre uma conexão profunda entre o emissor e o receptor, que eles estão juntos universo da linguagem, ao falarem e entenderem a mesma língua, e a fala era mais só que boca e ouvido. mas há quem diga (e eu não direi quem) que não estamos conversando, e sim elaborando nossas respostas, fechados num pequeno espaço que é a nossa própria mente, vida. nunca a do outro. dessa forma, seria a conversa mais sobre boca e ouvido mesmo? há algo também de sexy pensar que uma conversa não é linguagem - mas olho, boca e ouvido.
eu sinceramente não sei, e não era sobre isso que eu gostaria de falar. hoje belchior morreu. bem, que belo tema para um começo/ que triste tornar o homem em tema. sobretudo, porque a morte, em geral, é o mais desejado dos motes, serve-nos crua ou em metáfora, e é a única justificativa razoável para estarmos vivos. em segundo, belchior, porque considero que há um ponto de conexão ente nós (e bem, entre milhares de gente, mas que importa agora?) em gostar de belchior. porque eu ouvi uma centena de vezes em seu carro, em viagens, porque cantei umas duas ou três vezes em anos novo, com você (e com uma porção de gente da nossa geração, mas foda-se) ano passado eu morri, esse ano eu não morro.
todos os anos passados belchior tinha morrido e continuava vivo. então, ele morreu. é triste constatar esse fato inexorável da vida. ele morreu, e então, ano passado eu morri e esse também eu morri. acabou, é quase alívio, contra o espetáculo, você escreveu.
eu nunca escrevi nada a ninguém que morreu no dia da súbita morte - nem mesmo a minha irmã, imagino - e eu não iria escrever nada, mas meu facebook ia ser tomado pelos amantes do belchior, tudo que eu faria era reagir, eu esqueceria o dia de sua morte. eu não estava preparada para lhe dizer nada, então fui só honesta com o meu coração, escrevi o que teria escrito numa carta de fã, olá belchior, volte. estou aqui, te amo tanto, te recebo na minha casa, eu juro.
no entanto, eu não estou satisfeita com nenhuma das versões de amor declaradas, nem a minha, nem a sua. ora. havia um belchior vivo em algum lugar e me interessa pensá-lo neste lugar, sem querer ou conseguir voltar? desculpe-me o debate raso, mas entrarei nele através da astrologia. há três escorpianos que brilham violentamente na nossa terra (para mim e para milhares, não importa): torquato neto, belchior e milton nascimento. os três tem destinos diferentes. torquato, um escorpião quase ardido (por demais clássico), se suicidou muito jovem, deixando uma carta para sua esposa, fez uns filmecos, escreveu canções, um livro e deu adeus à essa tortura que é viver. belchior, nós sabemos, foge, some e agora morre. milton continua vivo, e a gente quase diz, bem baixo, infelizmente.
você concorda que todos os verdadeiros amantes de belchior preferem ele no escuro do que na luz que jorra sobre milton? e, finalmente, podemos nos perguntar porque é que belchior não faz como torquato, porque ele continuou a nos torturar com a sua vida que era meio morte?
é óbvio que ele é o meu favorito, primeiro por sua obra, segundo por essa trajetória onde é possível, tão fácil, se espelhar. eis o que eu acho:
o que belchior fazia não era apenas alimentar seu próprio mito, tornar-se, finalmente, a sombra, sem precisar morrer para tal? tornar-se uma memória em vida. mas como é que ele vivia sendo ele próprio esta memória? pensava ele, amargurado, tinha medo? eu consigo imaginar um belchior com medo, com tanto medo quanto eu tenho, medo de retornar, medo de por palavras onde ele já não sente que precisa delas. medo de não pertencer a este mundo - de nunca ter pertencido? pois será, ele se pergunta, este um ato de covardia ou de coragem? tendo desistido da fama e dos especiais de fim de ano e de discos de homenagem e regravações com a maria gadú, não fazia só por alimentar a fama do insaciável, a fama do que é perdido, por crescer tanto o mito no escuro que seria impossível voltar? como é que ele corresponderia às nossas expectativas, como é que ele poderia escrever de novo... se tudo passou... ou se tudo já fora escrito? por isso eu quis dizer que, se ele voltasse, haveria tanto gente para continuar a amá-lo. por que me é tão difícil imaginá-lo apenas vivendo, ás vezes feliz, fugindo da fama como uma figura absoluta consciente de si mesma? sabendo que esta não lhe seria confortável, só causaria problemas, que ele tinha uma mulher ou mais de uma mulher, ouvia uns discos, que estava tudo bem. mas não me é possível imaginar ele a não ser como alguém que viveu, por todos os dias, e todos os segundos do dia, a contradição de estar vivo.
melhor do que qualquer escorpiano.
talvez eu não tenha conseguido me expressar bem tudo que eu queria ter dito. mas fica para a próxima, se houver.
se nada te despertar desejo de responder, diga aí, qual teu cd favorito dele?
até.
ps: triste fato, tive que corrigir uns verbos de presente para passado, a morte ás vezes significa só uma correção verbal.
eu não sei se era realmente para escrever, nessa coisa aqui, mas estou interessada em debater um assunto com você. eu tive dificuldade de pensar no que é que eu te escreveria, se eu teria que escrever que as suas mãos eram pequenas e as suas unhas eram limpas e coisas do tipo, e por causa do seu post, eu finalmente percebi. era preciso ter atrito, finalmente atrito, para que se escrevesse algo que fosse válido dirigir ao outro.
você também concorda que quando conversamos é só uma espera pela pausa para que possamos falar de nós mesmos? alguns anos antes, eu não concordava, eu li um pouco do livro do merleau ponty, ele dizia que quando um fala e o outro escuta, é porque a escuta já é uma fala, um indivíduo penetra no outro através da fala - da palavra falada. eu achava este um belo conceito de conversa, porque dizia algo sobre uma conexão profunda entre o emissor e o receptor, que eles estão juntos universo da linguagem, ao falarem e entenderem a mesma língua, e a fala era mais só que boca e ouvido. mas há quem diga (e eu não direi quem) que não estamos conversando, e sim elaborando nossas respostas, fechados num pequeno espaço que é a nossa própria mente, vida. nunca a do outro. dessa forma, seria a conversa mais sobre boca e ouvido mesmo? há algo também de sexy pensar que uma conversa não é linguagem - mas olho, boca e ouvido.
eu sinceramente não sei, e não era sobre isso que eu gostaria de falar. hoje belchior morreu. bem, que belo tema para um começo/ que triste tornar o homem em tema. sobretudo, porque a morte, em geral, é o mais desejado dos motes, serve-nos crua ou em metáfora, e é a única justificativa razoável para estarmos vivos. em segundo, belchior, porque considero que há um ponto de conexão ente nós (e bem, entre milhares de gente, mas que importa agora?) em gostar de belchior. porque eu ouvi uma centena de vezes em seu carro, em viagens, porque cantei umas duas ou três vezes em anos novo, com você (e com uma porção de gente da nossa geração, mas foda-se) ano passado eu morri, esse ano eu não morro.
todos os anos passados belchior tinha morrido e continuava vivo. então, ele morreu. é triste constatar esse fato inexorável da vida. ele morreu, e então, ano passado eu morri e esse também eu morri. acabou, é quase alívio, contra o espetáculo, você escreveu.
eu nunca escrevi nada a ninguém que morreu no dia da súbita morte - nem mesmo a minha irmã, imagino - e eu não iria escrever nada, mas meu facebook ia ser tomado pelos amantes do belchior, tudo que eu faria era reagir, eu esqueceria o dia de sua morte. eu não estava preparada para lhe dizer nada, então fui só honesta com o meu coração, escrevi o que teria escrito numa carta de fã, olá belchior, volte. estou aqui, te amo tanto, te recebo na minha casa, eu juro.
no entanto, eu não estou satisfeita com nenhuma das versões de amor declaradas, nem a minha, nem a sua. ora. havia um belchior vivo em algum lugar e me interessa pensá-lo neste lugar, sem querer ou conseguir voltar? desculpe-me o debate raso, mas entrarei nele através da astrologia. há três escorpianos que brilham violentamente na nossa terra (para mim e para milhares, não importa): torquato neto, belchior e milton nascimento. os três tem destinos diferentes. torquato, um escorpião quase ardido (por demais clássico), se suicidou muito jovem, deixando uma carta para sua esposa, fez uns filmecos, escreveu canções, um livro e deu adeus à essa tortura que é viver. belchior, nós sabemos, foge, some e agora morre. milton continua vivo, e a gente quase diz, bem baixo, infelizmente.
você concorda que todos os verdadeiros amantes de belchior preferem ele no escuro do que na luz que jorra sobre milton? e, finalmente, podemos nos perguntar porque é que belchior não faz como torquato, porque ele continuou a nos torturar com a sua vida que era meio morte?
é óbvio que ele é o meu favorito, primeiro por sua obra, segundo por essa trajetória onde é possível, tão fácil, se espelhar. eis o que eu acho:
o que belchior fazia não era apenas alimentar seu próprio mito, tornar-se, finalmente, a sombra, sem precisar morrer para tal? tornar-se uma memória em vida. mas como é que ele vivia sendo ele próprio esta memória? pensava ele, amargurado, tinha medo? eu consigo imaginar um belchior com medo, com tanto medo quanto eu tenho, medo de retornar, medo de por palavras onde ele já não sente que precisa delas. medo de não pertencer a este mundo - de nunca ter pertencido? pois será, ele se pergunta, este um ato de covardia ou de coragem? tendo desistido da fama e dos especiais de fim de ano e de discos de homenagem e regravações com a maria gadú, não fazia só por alimentar a fama do insaciável, a fama do que é perdido, por crescer tanto o mito no escuro que seria impossível voltar? como é que ele corresponderia às nossas expectativas, como é que ele poderia escrever de novo... se tudo passou... ou se tudo já fora escrito? por isso eu quis dizer que, se ele voltasse, haveria tanto gente para continuar a amá-lo. por que me é tão difícil imaginá-lo apenas vivendo, ás vezes feliz, fugindo da fama como uma figura absoluta consciente de si mesma? sabendo que esta não lhe seria confortável, só causaria problemas, que ele tinha uma mulher ou mais de uma mulher, ouvia uns discos, que estava tudo bem. mas não me é possível imaginar ele a não ser como alguém que viveu, por todos os dias, e todos os segundos do dia, a contradição de estar vivo.
melhor do que qualquer escorpiano.
talvez eu não tenha conseguido me expressar bem tudo que eu queria ter dito. mas fica para a próxima, se houver.
se nada te despertar desejo de responder, diga aí, qual teu cd favorito dele?
até.
ps: triste fato, tive que corrigir uns verbos de presente para passado, a morte ás vezes significa só uma correção verbal.
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