primeiramente, peço desculpas por desobedecer a regra do intervalo semanal. se quiser, sinta-se livre para sugerir uma punição à altura.
acho que você tem razão quando diz da necessidade do atrito, como meio para iniciar um diálogo válido (ou vagamente necessário); é difícil avançar em um pingue-pongue de concordâncias e reconcordâncias, uma verdadeira ciranda em que cantamos todos juntos a mesma reza, uma mesma visão da vida que não é minha nem sua, mas algo entre ambas, um espaço em que concordamos todos com tudo e ignoramos as linhas que divergem disso. o mesmo blablabla de sempre, facebolha, convolução social, etc. etc. etc... também não é sobre nada disso que quero falar, mas talvez isso tenha sido um dos motivos que me levou a escrever aquele post.
a morte nos serve bem como tema, acho, porque é absoluta em sua essência, um evento único e comovente que reúne todas as possibilidades de reações, do choro comovido às revelações dos "presuntos do patriarcado", passando ainda pelas declarações de posse do luto ("pessoas de direita nunca entenderam Belchior!") assim como a simples indiferença. eu também relutei em escrever qualquer coisa a título de nota de falecimento, mas algo nessa coleção de manifestações me irritava, ao mesmo tempo em que não podia deixar de pensar o quanto Belchior tinha trespassado nossas vidas, muitas vezes através da minha obsessão musical por ele. um sentimento horrível de que eu deveria me pronunciar, depois de tantos anos "doutrinando" amigos e conhecidos, decorando cada canção de cada disco e cantando junto repetidas vezes. escrevi um texto duro, admito, um texto agressivo, uma provocação insensata. mas foi o que deu pra dizer na hora.
a verdade é que eu tenho uma dificuldade grande em me emocionar de verdade com o falecimento de famosos, especialmente quando eles já têm certa idade. mesmo que sejam famosos importantes pra mim. talvez nenhuma morte devesse me atingir tanto quanto a do Belchior, mas a distância entre o homem que morreu e a figura que celebrávamos me parece grande demais. talvez eu não seja capaz de compreender a paixão escorpiana que movimentou seus anos de vida, mas certamente eu não consigo compreender a paixão dos que lamentam sua morte como se ele fosse um membro da família, um amigo de longa data. isso não é motivo para diminuir essa dor. mas alguma coisa nesse lamento me parecia incongruente com o que eu tinha compreendido de todos aqueles anos ouvindo as músicas dele.
no dia em que bebemos o morto, assistimos a um especial da TV Cultura de 1974, parte da campanha de promoção do "Mote e Glosa". lá estava um belchior insuportavelmente jovem, com cara de hippie, de voz macia ao falar de seus muitos irmãos e do que ele entendia do cenário da MPB - se não me engano, ele chegava a citar Torquato. colo no final do texto o link, começando nos minutos finais em que ele discorre suas polêmicas sobre a música brasileira, sua agressividade contra o establishment pós-tropicalista, sua revolta com a cultura dos ídolos. são minutos em que se deflagra essa contradição que seriam seus anos de fama, um ídolo anti-ídolos, uma voz estranha falando de amenidades e de política com a mesma força, porque suponho que ele vivia a vida íntima e política da mesma maneira, sem distinção. abraçar e beijar é equivalente a explodir um tanque, ir ao cinema e falar de amor é tão transgressor quanto pichar um muro.
a juventude sempre foi um tema recorrente nas músicas do Belchior, não só nas letras como numa percepção de juventude que ele tentava transparecer em cada disco, uma busca incansável pelo novo, que acabou transformando ele numa caricatura estranha dos anos 80 em diante. acho que quando eu falo da sombra correndo da própria sombra, é nesse novelo oitentista que eu penso. foi ali que ele começou a abraçar demais tantas coisas tão diferentes e contraditórias, ultrapassando os limites da compreensão. é preciso uma certa generosidade ao ouvir os discos dessa época ("Cenas do Próximo Capítulo" em diante). mas ele sempre estava ali, sangrando loucamente em cima do palco, explodindo em suor e bigode.
talvez esse sentimento de perda me incomode por ir contra essa ousadia, essa "pulsão de vida" que projetou ele em tantos absurdos. e aí entendo a dor por ver essa energia ser cortada, mesmo depois dos anos de reclusão maníaca. acho impossível tentar entender o que aconteceu dentro da cabeça dele durante essa fuga, e sinceramente não me interesso muito. acho que ele viveu como quis, como um rockstar desequilibrado. talvez ele tenha sentido medo de voltar, talvez o medo das críticas e das paródias fosse maior do que o alento do amor dos fãs, sei lá.
concordo que as nossas declarações de amor sejam imperfeitas. mas pelo menos são mais honestas do que charges dele entrando no céu com um violão (que graças a deus não apareceram na minha frente). disseram que ele estava escrevendo, que compunha, que se "incomodava com o golpe". também disseram que ele morreu porque sangrou demais, ouvindo música clássica. o mito sempre vai estar montado nos ombros do homem. acho que o mínimo que podemos fazer é tentar sangrar de volta, mesmo que pareça impossível, mesmo que não acreditemos em mais nada.
(deixo aqui os minutos finais desse registro absurdo: https://youtu.be/94-rOEVnyDg?t=48m29s)
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